quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Velório da Barbie (Visão do Diretor Leandro Matzenbacher Dourado) Parte 1 (Como tudo começou)

 
Quando em meados de novembro de 2009 comecei a escrever o texto, tinha apenas duas ideias: A primeira é que o espetáculo iria se chamar O Velório da Barbie, ideia que partia de um pressuposto inusitado. Perguntei-me durante muito tempo qual era o símbolo de beleza que representasse um elemento de transição. Logo, lembrei-me da Barbie que na ocasião completava cinquenta anos, mas que ainda encantava as meninas e ditava de forma quase que subliminar as regras comportamentais da moda. Em segundo, eu queria que fosse uma comédia, porque acredito que nosso povo, embora goste de um bom drama, prefere ir a teatro para se sentir bem, rir um pouco e assistir coisas novas. Não sou do tipo de escritor que gosta de colocar nos palcos problemas mal resolvidos ou gente nua só pra chamar público.  Escrever peças que digam aquilo que não tenho coragem de dizer obrigando os artistas a interpretar contra sua vontade. Acredito que vivemos numa sociedade de espetáculos, mas não gosto de transformar as depressões da vida em um reclame descabido para fazer as pessoas saírem do teatro com cara de quem acabou de sair de um funeral de verdade só para sentirem-se agredidas por recalques que não são delas. E por pensar assim é que resolvei decretar a “morte da Barbie” de forma análoga a de Nietzsche que matou Deus, tirando conceitualmente do homem a ideia de um ser necessário, eu pensei poder fazer o mesmo com muito bom humor, só que no campo da beleza. Afinal se não há um Deus em quem vamos crer? Do mesmo modo que sem o ícone da beleza, torna-se difícil conceituar o que é belo. E foi pensando exatamente neste efervescente cenário que nasceu o Velório da Barbie. Contudo eu não tinha ainda uma estrutura para enlaçar a trama. Na ocasião eu havia assistido um documentário que revelava os bastidores da vida dos artistas que interpretavam o espetáculo erótico do Cique du Solei, o Zumanity, o qual tinha como personagem narrador uma Drag Queem.
     Estava perfeito, por que não uma Drag para apimentar os diálogos e criar um clima de androgenia necessário para amarrar dois universos tão diferentes como a vida perfeita da Barbie e o mundo real composto por três garotas tão diferentes que pertenciam a realidades sociais distintas. Sem contar que de uma forma sutil eu acabei abordando a homofobia que impera em cidades “atrasadas”. Surge então o primeiro ato. Inspirado nesta ideia eu escrevi a primeira parte praticamente em duas horas de hilariante diálogo entre a personagem Barbie que tenta se comunicar com uma Drag Queem que não acredita que a Barbie é realmente a verdadeira personagem do mundo da moda. Uma vez concluída essa primeira etapa surgem novos desafios. A esta altura estávamos em meados de janeiro de 2010. Eu não queria colocar muitos artistas em palco, queria focar a ação em apenas cinco. Foi à etapa mais difícil, pois todos tinham que ter a Barbie como algo em comum. Nasce então Alexandra. A típica pirigueti, fútil e de vida livre, ela tem uma linguagem chula, pois na época tive contato com muitas garotas que apresentavam este comportamento em algumas escolas, triste e dura realidade da educação de nosso país. Teve muita coisa que acabou não sendo incluída no texto principal, mas que serviu como laboratório para a criação de um personagem muito querido pelo público. Alexandra é o vetor da primeira catarse, pois muitos expectadores podem ver-se presente nos dramas existenciais de Alexandra que vão dos churrasquinhos na “lajem” ao som do funck, incluindo seus sonhos secretos de ser uma Barbie de verdade. Depois nasceu Celudivana, garota do interior que apresenta os verdadeiros costumes dos reminiscentes da cultura italiana, religiosa e recatada, ela traz forte elo com o interior de onde veio. Cleudivana acaba sendo a personagem mais carismática, pois é muito próxima da realidade cotidiana dos interiores do sudoeste do Paraná. Confesso que ao escrever o personagem da Cleudivana pretendi evidenciar a inocência e a verdade destes costumes. Sempre me questionava a respeito da personagem Bozena que era tida no programa da rede Globo como uma interiorana de modos estranhos repletos de ignorância, a típica “capiau”, o que sempre achei que deturpava os costumes de nossa região substituído a inocência pelo ridículo. Pato Branco vibrava ao ouvir histórias que não existiam de nossa cidade, que muitas vezes aos olhos do Brasil despertava o eminente pensamento: “que em Pato branco todos eram assim”. Finalmente a personagem Dóris, uma construção misteriosa, que deveria ser o oposto das outras duas, mas que por algum motivo precisava fazer parte de uma casa, e dividir o aluguel. Dóris faz o tipo intelectual, usa roupas cafonas e tem estranhos modos que acabam confundindo suas colegas, é estudante de Direito e paga seus estudos como dançarina, fato este que é omitido às suas colegas, pois esta criou um personagem conceitual para ser aceita. Uma vez determinada à estrutura do espetáculo foi muito importante fazer uma vasta pesquisa sobre o universo da Barbie, afinal o teatro deve passar uma mensagem. E o público embora não pareça, espera por isso. Embora façamos teatro primeiro para nós, devemos sempre tentar fugir deste ciclo vivioso.        


Todos os direitos são reservado a Leandro Matzenbacher Dourado, diretor do Grupo Gayatri, sendo proibido a divulgação de material, sem autorização

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"O Velório da Barbie" um caminho de sucesso

Olá caros expectadores, é com grande satisfação que o Gayatri está na sua segunda temporada do Espetáculo que se tornou mania. O Velório da Barbie é a comédia mais divertida dos últimos tempos vista até o momento por mais de 5 mil pessoas. Por ter um grande compromisso com o público do sudoeste, o espetáculo ganhou novos elementos como piadas novas, e uma cena que está divertindo todo o elenco e certamente irá divertir o público que irá retornar ao teatro. “O primeiro beijo de Cleudivana” é uma cena que brinca com a personagem Cleudivana que é beijada numa cena hilária e totalmente nova nesta versão 2011. Com um elenco belíssimo e muito talentoso, novas coreografias e muito humor, O Velório da Barbie 2011 conta com os ousados figurinos dos personagens e das Barbies num triunfal desfile que sacode as estruturas do mundo da moda. Serão 20 novas lindas Barbies que desfilam a Marca Jorge Jefersom com todo glamour que uma Barbie tem direito. É sem dúvida uma ótima opção para quem quer se divertir, ganhar brindes e ver muita gente bonita.

Então pessoal nos dias 21 e 22/05, o Velório da Barbie está de volta, versão 2011, no Teatro Naura Rigon, em Pato Branco/PR. E a melhor parte, você pode ir ao Velório da Barbie com descontos, basta encaminhar uma foto de que você já foi a peça, para o email gayatrigrupo@gmail.com , a mesma será postada no blog do Grupo Gayatri http://gayatrigrupo.blogspot.com/ e você ganha brindes. No final da peça poderá tirar fotos com os personagens e ter o seu dia de Barbie.

Todos os direitos são reservado a Leandro Matzenbacher Dourado, diretor do Grupo Gayatri, sendo proibido a divulgação de material, sem autorização

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Doce Cenário

Perdão senhores, mas acho que chegou o instante de confessar,
Que fui arrebatado por uma avassaladora paixão, louca, caótica, insana...
O que hei de fazer diante desta abafada sensação, que impede meu medo de olhar,
A ternura que no colo somente tu, oh venerável arte tens a me ofertar?

Ouvi dizer, que quando morre um ator o mundo silencia,
De triste pesar os céus se emudecem, com a fronte pálida e tempestuosa,
Estendendo o lamento da perda de seu filho predileto, numa confusa e morna ânsia,
Esta que por séculos anima e purifica com seu atento olhar, sua natureza formosa.

Que da serenata da amada, até o funeral suntuoso do castigado Prometeu,
Cujos acordes da lira de Dionísio, fizeram dormir o cão do inferno órfão de juízo seu,
Onde o falecido, mesmo após a morte, uma nova música compõe para um filho ao leu,
Ouve gritar da garganta de Ícaro os mais caudalosos lamentos.

Sim, eu quero buscar-te, quem sabe sobre as nuvens cantantes de Aristófanes,
Esse que era mais um filho seu, derradeira e encantadora poesia a esvair,
Dentre os martírios daquela alva máscara que o rosto de vocês tem costume em vestir,
Que outrora a Baudelaire pertenceu, mas que agora suspiro e surto assim tão insones,

Vinho, orgia, bacanal e devaneio, bálsamos de sereia que Balzac bebeu na veia,
Do claustro de Shakespeare onde inspiração sempre tem transbordante moralidade,
Ou na infame agonia enervada na avareza de Moliere, seu rival que incendeia
A cortina do nosso teatro que é quase todo francês, ouse crer na verdade...

Isso porque a França tem até menos medo do infortúnio, do que perder seu regalo,
Ora, não és tu aquele maltrapilho romano que fala grego disfarçado de cristão?
Dançando junto dos ciganos de Vitor Hugo a vomitar no pátio seu nobre escândalo,
Fruto desta nossa natureza ideal, feita por muros de pura soberba e solidão,

Sabe que está a tentar usurpar das letras toda beleza e a essência mais pura em suma,
Percorrer o risco de tudo ler e fazer, para que talvez no fim não haja mais nenhuma,
Onde o desejo é puro desatino, um sentido louco e perturbado, um amargo instantâneo...
Avesso malogro a atiçar o arrepio e o gosto, num aromático sabor momentâneo.

Intérprete infinito, sinto sorver das ancas alvas das consonantes, um buque de candura,
Sei que a vingança é cruel temível, e nas súplicas doces sempre se faz invisível.
Ainda a raiva no auge da traição é a mais desigual entre os sedentos de tanta tortura,
Traz o espírito ao torpe arrependimento, onde o amor traído é sempre o melhor amigo...

Mas como seria deleitoso este sentido de poder indizível, de estupor imprescindível,
O de ter e ver todas as palavras que a libido do tinteiro iria alcançar sem culpa temível,
Vê-las, tê-las, absorvê-las, escrevê-las! Como devastador vento na garganta do furacão!
Numa inconfessa langorosa orgia de escrita tecida em meio à impressão.

Donde tamanha volúpia inflar-me-ia do alto sentido do tato até a abertura do pulmão,
Num entrecortar sinuoso e quente de rimas retóricas e metáforas coloridas da primavera,
Degustando de A à Z,  no desdém do alfabeto, temente a ti por não ter remorso ou afeto,
Como que se incorporasse o primitivo deus da fertilidade, Eros o mito sustento e bufão.

Sei que a freguesia expectante clama a fuga de ser diferente por fora e igual no interior,
Com quem zomba do Cupido em honrosa sensatez que escarneceu na luxuria de Safo,
Bela poetisa, em tempos exauridos de Lesbos, roubou o pudor a trepidar simples bafo,
Virginal pureza carnal, musas do gozo impresso na deliciosa cadência do carnaval.

Sim, o ator morria, enquanto caia esquecia que sua palavra gotejava esperanças, pavor,
Que seu rosto se emoldurava na fascinante fumaça e no nodoso espectro noturno...
Lúbrico manequim promíscuo, ou madona do avesso símbolo sangrento inverso turno,
Em busca do fundo do olho daquela fada chamada Estrofe, musa fustigada de amor,

Cuja insana sombra acrobata dança sobre vocábulos rebuscados em vulgares molejos,
Na dourada moldura semicerrada na lápide de meu destino donde se esgota o castiçal
Pingos suaves e sinuosos de grande sensualidade e vapores desenlaçados por arquejos,
Vela minha fronte perene em desejos, mas que sem usufruir do profundo gosto abissal.

Ai de mim que ora morro diante das provas desesperadas dos descrentes, dos velhos,
E dos que sem arte imitam os dementes, eis que a maior das poesias é sempre aquela
Que no foragido instante vejo, e que do palco sempre a cortina do alto do foco almejo,
A densa pretensão de fugir do túmulo, do féretro e das tenras e ermas honrarias...

Farei com plena exatidão, a sempre vindoura arte o meu Máximo ponto de exaltação,
Hei de substituir as estrelas do firmamento pela cataclísmica e elástica explosão,
Permutando a divina inspiração numa símia pantomima, recorte do velho Chaplin,
A quem sempre algo temos aprendido, o mínimo modo de ser assim improvisado...                 

Perder-me-ia em meio à rima que definha frente ao bamboleante e chicoteador desejar,
Não como mera estrela em questão junto de sua borda de suprema devassidão.
Mas a eloquente sensação do imenso e infinito arrebol de indestrutível sensação,
Eis-me aqui! Louca artista suicidária em pretensa vontade de ser como a constelação!

E quanto ao mundo que há pouco se calou, que bem sabe que lágrimas derrama,
Olha vez por outra para tua arte na divinal trama, vestida de vinho, bebendo máscara!
Com o dizer poético que a má sorte afasta: se tu partes para o além de fato,
Personifica-te suprema arte, pois acima do céu te aguarda ansioso o próximo ato!  
(Leandro Matzenbacher Dourado)

Todos os direitos são reservado a Leandro Matzenbacher Dourado, diretor do Grupo Gayatri, sendo proibido a divulgação de material, sem autorização

domingo, 17 de abril de 2011

Reflexões de diretor

O que faço como artista em primeiro lugar é tornar a arte um ofício simbólico dos meus ideais. Confesso que muitas vezes ao promover meus laboratórios para atores, fico a me perguntar: o que é isso que estou fazendo?  Como devo chamar essa energia intensa que emana da concentração de meu elenco enquanto eles se perdem e se encontram a cada exercício? Penso que às vezes se o público pudesse presenciar o que fazemos em nossas oficinas, talvez as pessoas ficassem confusas porque quando isso se materializa e vai para o palco, o que se vê são apenas resultados inconfessos transformados em cenas. Ficam satisfeitos ou indignados, uns gostam do que estão vendo e outros simplesmente se levantam e saem porque atingimos seus “tabus” internos os quais eles não querem se comunicar. Para mim o verdadeiro espetáculo é o que fazemos antes de colocar uma peça em palco. Pois quando a coisa está pronta, fica limitada pela capacidade de quem a assiste e não pela faculdade de interpretar de quem representa. Sou um diretor polêmico para mim mesmo, pois estabeleci há algum tempo por questões filosóficas que não me são facultadas revelar aqui, mas que receberem um corpo, um nome, uma ação e são gestados na cabeça de quem assiste. Posso dizer com certa segurança que hoje posso fazer qualquer coisa num palco, ou nada, mas isso está distante do que é posto em cena, porque lutamos contra o gosto alheio.
Pretendo tornar meus espetáculos mais férteis e infecundos ao mesmo tempo. Férteis para os que assistem, pois precisam sair do teatro com a sensação de que o que viram é assim como o mundo é lá fora. Infecundos porque eles não devem “engravidar” de personagens que são ditos pela expectativa de quem observa a uma peça como um retrato estático de algum recorte da vida, mas não devem se infectar com a ideia de que são melhores ou piores do que qualquer artista. Muitas vezes eles não sabem disso eu acho. Outras vezes eles percebem, mas deixo que não se percam, pois precisam ser “parteiros” de sensações apenas.
Há aqueles que preferem crer que podem interpretar qualquer coisa, cadeiras, pedras ou Hamlet, isso não basta, porque se fizermos isso estaremos apenas deixando que o significado de nossas ações no palco se tornem meros plágios da realidade, então acabamos fazendo coisas insignificantes como modismos, comédias instantâneas que não fazem rir pelo que se reconhece como cômico, mas como uma manifestação de um desejo de rir, ou ainda colocamos pessoas nuas para chamar atenção encobrindo um defeito ou falta artística que podem ser muito bem encobertas por artifícios pobres como esse. Minha arte acaba sendo algo muito difícil de lidar, pois luto contra aquilo que preciso para me fazer ouvir e ver.
Quanto ao que deve chamar ou intitular de arte cênica me preocupo muito não em fazer aquilo que se faz o tempo todo para chamar a atenção de um público, o que é difícil é fazer isso de uma forma que todos saibam do que se refere sem que atrelem isso ao que conhece em seus íntimos. Por isso é que sou criterioso com esses resultados.  Pato Branco tem muitos bons artistas, mas poucos artistas bons. Se você vai ao teatro assistir uma peça pode escolher gostar do que vê porque se identificou com esses tipos que são na maioria das vezes o resultado de uma pobre imitação de estereótipos presentes na expectativa de quem paga um ingresso, na medida do possível impeço meus atores de fazer isso, já desintoxiquei muitos. O que pretendo que meus artistas representem é a existência não a essência de um personagem. Quando acionamos nossa memória emotiva pra construir um personagem fazemos um recorte das vivências de um possível ser e colamos em nossa ação como um mural metafisico que apresenta a essência do autor, o qual através do texto sugere pelas ações do personagem uma gigantesca coleção de trejeitos que devem ser seguidos, caso não sejam isso não é o que pretende que se interprete aquilo que antevê o escritor. Contudo ao convidar meus atores a criar conscientemente não mediante o inconsciente a observar a existência de um personagem e sua maneira de ser. Quando se percebe o que existe a sua frente você acaba por “tirar do envelope” de achismos a verdadeira realidade de um personagem. Não basta observar um mendigo, não basta se tornar um para viver uma vida que não é sua para vivê-lo num palco, o que precisamos fazer é entender o seu devir, sua história, somente assim se obtém uma essência, a qual foi produzida de acordo com o movimento social que permitiu a existência dos mendigos no mundo. Recolher atributos de um ideal e reproduzi-los em uma cena é uma forma erudita de se concordar que ainda há imitação. Permitir que ator “ouça” a voz da existência do que pretende interpretar é uma nova receita. Minha receita, a receita do Gayatri.






Todos os direitos são reservado a Leandro Matzenbacher Dourado, diretor do Grupo Gayatri, sendo proibido a divulgação de material, sem autorização.