quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Sequestro da Barbie estréia dia 29/10/2014.



Leandro Matzenbacher Dourado é escritor e diretor da comédia teatral O Velório da Barbie, que esteve em cartaz nos últimos quatro anos. Em reposta a algumas das mais frequentes perguntas, fala no Blog sobre suas expectativas acerca da continuação da peça, a qual em novo formato aposta em diferentes segmentos para se fazer comédia. Por isso o Blog pergunta:

Blog: No teatro diferente do cinema não há muito a tradição de se fazer uma continuação, o que o fez apostar nessa proposta?

Leandro: Durante quatro anos a peça O Velório da Barbie conquistou sucesso de público e fez ao longo de 10 cidades visitadas no Sudoeste do Paraná muitos fãs, acredito que apostar numa estrutura que já estava em andamento e oferecer novidades seria uma boa estratégia de se continuar a disseminar a arte do Teatro. Outro fator foi que nos dois primeiros anos a peça não teve alterações no texto e nas piadas, mas devido ao grande número de pessoas que assistia a peça mais de 3 ou 4 vezes, achei por bem ir alterando e atualizando algumas partes, foi quando percebi que a ideia ainda era muito boa, então pensei, por que não dar uma continuação?

Blog: Você mistura na primeira peça, muitas linguagens, no começo ela tinha uma rotina que mediava uma parte histórica que contextualizava ao público um pouco da trajetória da Barbie como ícone de beleza, e esta fazia um forte contraste com a personagem de uma Drag Queen, sem contar é claro o mundo da moda que privilegiava junto ao espetáculo um desfile de moda, e agora como fica a nova versão?

Leandro: A primeira versão precisava ser informativa, e hospedar um desfile de moda no espetáculo foi uma boa estratégia na época para unir universos aparentemente diferentes, como o teatro e a moda, mas não podemos esquecer que o foco ficava nas personagens que vivem numa pensão e que por motivos muito pessoais pensavam não serem mais capazes de voltar a infância que tiveram em comum, por se declararem publicamente adoradoras da Barbie elas escondiam isso uma da outra. A questão é que na primeira versão, o conflito da peça se passa justamente no que posso chamar de rito de passagem da vida infantil para a vida adulta, a qual conservou certos gostos que não foram apagados com a dimensão cultural das personagens, motivo este, que as faz diferentes no cotidiano, mas muito parecidas no que se refere ao desejo de viver uma vida imaginária no mundo da Barbie.

Blog: A primeira peça tinha uma linguagem que alterava piadas muito picantes e segundo alguns comentadores um forte apelo visual a sensualidade das atrizes, sem contar a personagem Drag Queen que era um verdadeiro escândalo para os moralistas de plantão, comente isso;

Leandro: Já passei do tempo de me importar com certas críticas a respeito da maneira como configuro minha linguagem no palco, acho que isso muitas vezes é proveniente de pessoas que pagam o ingresso, assistem a peça, povoam seu imaginário e principalmente dão muitas risadas do que é feito e dito, mas no fim saem do teatro e gostam de fazer de conta que estão escandalizados porque no fundo, as pessoas têm dificuldade de aceitar que isso tudo pode estar num palco e provocar tantas sensações simultâneas. O que muitos chamam de apelativo, para mim é na verdade uma maneira de mostrar à sociedade, como nossa moralidade é capaz de sangrar e cheirar mal quando não somos devidamente preparados para suportar no mundo em que vivemos, isso nos faz de imediato, atacar aquilo que é mais evidente para que se possa proteger nossas misérias interiores.

Blog: Se na primeira versão O Velório da Barbie apostou na união entre as linguagens do teatro e da moda, o que podemos esperar com relação a sua continuação, O Sequestro da Barbie?

Leandro: Quando há dois anos escrevi a continuação, eu já tinha uma rica experiência do público que nos assistia, isso fez com que antes de anunciar que haveria uma segunda peça com o tema da Barbie, eu alterasse o final original, colocando um segundo final, no qual Barbie terminava sendo sequestrada. E deu certo, pois os fãs começaram a alimentar seu imaginário sobre o que poderia ter acontecido com Barbie. Quando anunciei que teríamos uma segunda versão, as pessoas já se identificariam com o nome, o que também resolve muitos problemas, uma vez que quem vai ver agora, são aquelas pessoas que já viram a primeira peça, e trazem essa informação, sem impedir aos que não viram que gostem do que vão assistir, pois no fundo é uma outra peça. Quanto a nova proposta, escolhi o mundo dos videogames e das histórias em quadrinhos, sem esquecer é claro de personagens clássicos e novos da literatura e dos filmes que são satirizados e parafraseados na peça.

Blog: Com tantos personagens já existentes em outros segmentos das artes visuais, você não teme que as pessoas possam confundir seu espetáculo como uma cópia?

Leandro: Não. Primeiro, porque não há cópia em o Sequestro da Barbie, há sim inovações, copiar para mim é você pegar trechos de outras peças ou de filmes e usa-los como parte de sua obra, ou ainda fazer saladas de conceitos provenientes de outras obras para bancar o inteligentinho perante o público e a crítica. Segundo, porque minha obra é diferente neste quesito, pois apesar de usar de personagens que já existem, bem como de cenas conhecidas, o que eu faço ali é uma desmanche de ideias e uma sobreposição de reflexões, há neles um conflito diferente, vejo isso muito mais como uma desconstrução da narrativa cênica, do que um mero plágio como tenho visto em outras obras por aí. Sem contar que a ideia é justamente apresentar por meio de personagens muito conhecidos, algo que as pessoas jamais esperam que eles façam, acho que isso é inovar, já que atende também a uma certa carência que existe no público em geral, em ter essa oportunidade de viver novas experiências teatrais por meio de ícones consagrados que demandam de conflitos contemporâneos.

Blog: Fale um pouco mais sobre como irá juntar tantas linguagens diferentes e construir uma unidade:

Leandro: Acho que unidade existe apenas no que se refere ao elenco e a maneira como eles têm se disposto muito profissionais a expor seus papeis, já com relação a mistura de linguagens e personagens, acredito que por ser uma comédia, não tenha a necessidade de se esperar esse tipo de unidade, uma vez que a comédia nos permite fazer transições muito bruscas de elementos cênicos. Me preocupo apenas em manter certa lógica no que se refere ao modo como os personagens interagem em cena uns com os outros, como no teatro a questão de efeitos especiais, por exemplo, é muito diferente do cinema, o que vale é a ideia. Quando o personagem do jogo Mortal Kombat, Sub-Zero congela seus inimigos no jogo e no cinema, há uma forte necessidade de se passar essa imagem de maneira mais realista possível, mas no teatro isso não é necessário, inclusive isso pode ser resolvido de modo criativo, pois na mente das pessoas já existe esse conceito que é inerente ao personagem, eu apenas otimizo isso em cena e resolvo de forma divertida. O divertido aqui é para mim uma categoria do ridículo que se bem encenada convence sem questionar.

Blog: Então quer dizer que se um diretor souber usar esse ridículo ao seu favor isso pode se tornar algo positivo no fim?

Leandro: Sim, totalmente. Existe o bom e o mal ridículo, o mal é aquele que é desempenhado pelo ator, seja ele profissional ou amador, de modo que no fundo o expectador acabe ficando com aquela sensação de que o que está ali, é uma coisa muito falsa sendo levada a sério a ponto de querer ser aceita como verdadeira. Isso é ruim e só piora o trabalho de um artista, podendo condena-lo a jamais ser capaz de descobrir a diferença entre o certo e o errado. Já o bom ridículo, é aquele que faz um trabalho honesto, quer dizer, ele deixa com que o público perceba que isso não é real e nem perfeito, mas nem por isso ele o faz tentando ser verdadeiro ou engraçado, ele simplesmente o é. Para isso tenho a felicidade de ter bons atores e atrizes que interpretam as coisas sem que elas existam efetivamente, mesmo que isso pareça ser um jargão cênico, acho ainda, que muitos deles são capazes de interpretar suas próprias interpretações, o que no fundo é positivo na comédia contemporânea, e ao meu ver é um grau acima do que se chama de improvisação.

Blog: Isso quer dizer que sua equipe não improvisa? Você é contra esse método?


Leandro: Sou a favor da verdade em cena, seja ela qual for, gosto muito da frase: Fora do texto não tem salvação. Mas isso não significa que em alguns momentos os artistas não acabem improvisando, metendo cacos como dizemos no teatro, apenas não concordo que uma peça tenha que ser apenas isso, acho isso um desrespeito com o público, porque quando no ator que improvisa esgota a falácia, isso sempre acaba levando-o a um tipo muito pernicioso de comédia, que é a que usa as pessoas da plateia para fazer gracinha só para fazer o ator sair por cima. Acho que essa interação tem limites, embora seja uma tendência hoje, não sou muito adepto dessa prática porque vejo que isso traz danos irreversíveis ao crescimento de um artista de teatro, por isso não incentivo muito isso nos novos, apenas penso que só podemos mentir bem sobre um fato, se estivemos presentes nele, mesmo que a mentira seja então, uma espécie de omissão, só não concordo em mentir sobre o que não conheço, isso deixa as coisas pouco reais em cena e acaba delimitando o trabalho de um ator convertendo-o a um mero repetidor de modinhas. No entanto, sou a favor da interação entre ator e platéia, isso é parte da personalidade das pessoas hoje, por isso se bem feito não há porque não fazer.









Todos os direitos são reservado a Leandro Matzenbacher Dourado, diretor do Grupo Gayatri, sendo proibido a divulgação de material, sem autorização

Nenhum comentário:

Postar um comentário